Fause Haten se consagra ator com o musical Lili Marlene

O estilista Fause Haten vai além das passarelas para expressar sua arte. É assim com o espetáculo de sua autoria, no qual ele traz assuntos polêmicos para o palco, como abuso infantil

Por Tainá Goulart Publicado quinta 22 junho, 2017

O estilista Fause Haten vai além das passarelas para expressar sua arte. É assim com o espetáculo de sua autoria, no qual ele traz assuntos polêmicos para o palco, como abuso infantil
Musical Lili Marlene de Fause Haten - Fotos: Paulo Santos
São cerca de dez peças no figurino de Lili Marlene, Um Musical, espetáculo que tem roteiro, composição e direção assinados pelo estilista Fause Haten, 48 anos, o protagonista. Porém, antes de entrar no palco do Teatro Eva Herz, em São Paulo, as cinco lingeries, duas meias e os três vestidos glamourosos são colocados um em cima do outro a fim de ajudar a construir a imagem da personagem. “Para criar o corpo feminino do Lili e da Marlene, duas personagens centrais da história, eu resolvi apostar na lingerie e em algumas dicas que peguei de amigas drag queens. Eu uso fita adesiva para delinear a minha cintura e só coloco todos vestidos minutos antes da plateia entrar, pois eu fico com muito calor e quase sufoco. Quando comecei com a história de criar este musical, em 2016, me vesti de mulher pela primeira vez na vida e foi uma sensação estranha, pois sempre reprimi qualquer coisa feminina em mim. Foi uma espécie de libertação”, disse Fause, que não abandonou o seu legado na moda. Ele mantém uma loja em São Paulo e clientela pelo Brasil e exterior. “Passo horas costurando, principalmente na parte da tarde. Brinco que sou quase uma costureira de bairro, adoro atender as minhas clientes pessoalmente”, completa. 

O estilista Fause Haten vive uma dupla rotina. De dia, ele costura suas criações para as clientes e, à noite, ele se transforma em mulher para protagonizar o espetáculo Lili Marlene, Um Musical, em cartaz em São Paulo. 

Bullying na infância
A peça narra a história de Lili, neto de Marlene, uma grande estrela da Hollywood dos anos 1930, que, rejeitado pelo pai, deixa Berlim na adolescência e passa a estrelar shows em boates de Paris. Hoje, na maturidade, o personagem relata sua biografia, que teve ainda uma passagem como sacerdote de uma igreja nos Estados Unidos. “A questão do abuso infantil é um assunto central deste texto e é um tema que faço questão de pesquisar. Sofri bullying desde pequeno e a gente acaba desenvolvendo um olhar diferenciado para certas coisas. Todos os casos que conto no palco são verídicos e é uma catarse poder falar sobre isso. Quando estava no processo de criação, contava para as pessoas o que fazia e todas elas relatavam uma história que sabiam ou que tinha acontecido na família delas”, revela o ator, que começou a fazer teatro em 2006, no Teatro-escola Célia Helena. 

Fause conta que pegou dicas com várias drag queens para se vestir de mulher. “A fita adesiva até uma altura do corpo faz a cintura que eu quero”, revela.

Foi durante o período de aulas que Fause começou a criar figurinos para vários musicais, como O Médico e o Monstro, em 2010. “A minha turma me pediu para fazer as peças de todos na nossa montagem, mas eu recusei porque queria me formar como ator. Rolou um certo preconceito comigo, pois estavam acostumados a ver meu nome somente em desfiles. Não ligo muito para isso, conquisto meu espaço e o respeito aos poucos, com projetos significativos.” 

“Fiz tudo sozinho e costurei à mão. Tenho de colocar todos os figurinos antes de entrar. É um calor aqui dentro.”

Interação com o público
Com direção musical de André Cortada, o espetáculo traz o tom pesado do punk­rock, uma marca de Fause. “É quase um anti-musical, com muita guitarra pesada, efeitos cênicos desconfortantes e uso de histórias não tão fofas, como os musicais costumam ter. As letras foram criadas por mim, mas o André me ajudou a trazer uma unidade para texto e música.” Quando perguntado o motivo de trocar as passarelas por uma coxia, Fause é categórico. “Num desfile, são modelos andando com minhas coleções, talvez com uma música, um cenário e uma iluminação. A história fica fraca ao ser contada assim. No teatro, eu consigo ir além, posso brincar com diversos elementos e interagir mais com o público. Hoje em dia, quem vai à semana de moda mal aplaude o desfile. A pessoa está mais preocupada em filmar a última entrada para atualizar as redes sociais.” opina. 

Além de fazer os figurinos, o ator assina roteiro e direção

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