Contigo!
Facebook Contigo!Twitter Contigo!Instagram Contigo!Spotify Contigo!
LGBT / Mês do #orgulho

Daniel Ribeiro fala sobre protagonismo gay em momento conservador: ''Continuaremos contando as nossas histórias''

Diretor de 'Hoje Eu Quero Voltar Sozinho' exalta representatividade e revela novos projetos

Leandro Fernandes Publicado em 28/06/2019, às 12h57 - Atualizado em 07/08/2019, às 17h47

Daniel Ribeiro - Divulgação/Lacuna Filmes
Daniel Ribeiro - Divulgação/Lacuna Filmes

Daniel Ribeiro é um dos grandes novos nomes do cinema brasileiro. Ele dirigiu e escreveu o sucesso Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que fez história ao levar um público de 33 mil pessoas aos cinemas na primeira semana, com distribuição em apenas 33 salas ao redor do Brasil. Além da distribuição limitada, o filme marcou por apresentar a trama de um adolescente cego que se descobre homossexual.

O diretor e roteirista de 37 anos conversou com CONTIGO! sobre a representatividade no cinema nacional e a gradual mudança na opinião pública quanto à população LGBTQI+, especialmente quando se trata da maneira em que são retratados na ficção audiovisual.

Ele propõe que é necessário ampliar o escopo de temas e personagens nas narrativas audiviosuais e prepara novos projetos para aumentar a representatividade.

CONTIGO!: Você consegue se lembrar de qual foi a primeira vez que você se sentiu representado numa obra de ficção? E quando foi a primeira vez que se sentiu representado num protagonista?

Daniel Ribeiro: Duas obras audiovisuais marcaram a minha adolescência, época em que eu me descobria gay. Uma delas é o filme inglês Delicada Atração, que retrata a relação de dois adolescentes homossexuais no momento de descobertas. A segunda é a novela A Próxima Vítima, que tinha os personagens gays Sandrinho e Jeferson, que terminam a história indo morar juntos, aceitos pelas famílias.

CONTIGO!: No imaginário popular, os clichês da homossexualidade ainda são muito fortes, provavelmente porque muitos deles são reais, mas alguns claramente foram usados para reforçar imagens LGBTfóbicas, como o homossexual ou bissexual que trai o companheiro ou companheira com uma pessoa do sexo oposto e “se converte” ou o amigo gay divertido e levemente maldoso que serve como alívio cômico. Qual é o clichê que você acha mais prejudicial?

DR: Eu acho que esse tipo de retrato considerado clichê era um problema no passado porque eram os únicos retratos que existiam e eram criados de forma superficial. Hoje em dia, considerando que existe uma pluralidade enorme de personagens homossexuais nas telas, não acho que dá pra dizer que um tipo específico é prejudicial. O problema está na forma de construção desses personagens. Porque você pode ter um personagem considerado clichê mas que é construído com profundidade e múltiplas camadas trazendo riqueza e um novo olhar para o que antes era raso e superficial. 

CONTIGO!: Além do protagonismo na frente das câmeras, muitos atores LGBTQI+ têm falado mais abertamente sobre suas sexualidades, o que há dez anos seria impensável. Isso se reflete nas produções? Faz diferença a sexualidade do ator ou basta que tenha a disponibilidade, digamos, afetiva para o papel?

DR: Eu acho incrível e apoio atores que falam abertamente sobre sua sexualidade por mostrarem que não é isso que define os papéis que podem fazer. Eu conheço atores gays que fazem ótimos personagens heterossexuais e atores heteros que fazem ótimos personagens homossexuais. Cada papel é único e quando se está produzindo um elenco são diversas as razões para escolher um ator ou atriz. A sexualidade até pode ser uma delas, mas definitivamente não é a única. 

CONTIGO!: “Não levantar bandeiras” é uma frase repetida como se fosse mérito, às vezes soa como um “gay, mas nem tanto”, mas ao mesmo tempo pode ser interpretado como uma tentativa de naturalizar a nossa existência. Para você, a representatividade levanta a bandeira, querendo ou não?

DR: Hoje em dia, eu acho que fazer um filme com personagens LGBTQI+ acaba sempre levantando uma bandeira junto. Eu acho que às vezes pode até parece que não tem bandeira, mas isso acontece porque foi construído para não parecer e, assim, conseguir chegar em um público além das nossas bolhas. As minhas histórias sempre nascem de alguma bandeira que eu quero levantar. 

CONTIGO!: O governo atual tem reduzindo muito os programas de incentivo cultural e algumas decisões parecem impactar diretamente a produção audiovisual brasileira, provavelmente a médio e longo prazo. O caminho para o futuro é focar no cinema de guerrilha ou ainda existe esperança?

DR: Eu sempre fui um otimista, mas estou sem muita esperança. Por outro lado, a história é sempre cíclica, então mesmo que esse governo destrua muita coisa, voltaremos com força no futuro. Felizmente, hoje em dia é possível produzir audiovisual com menos recursos do que nos anos 90, quando Collor destruiu o cinema brasileiro então acredito que continuaremos contando as nossas histórias da forma que for possível. O problema desse governo é que ele pode destruir a indústria do audiovisual, incentivada e construída nas últimas décadas e que gera milhares de empregos. Então as histórias continuarão sendo contadas mas talvez sem a frequência de hoje e sem que profissionais do audiovisual possam viver de fazer cinema. 

CONTIGO!: Você acredita na possibilidade de termos um protagonista gay em uma novela da Globo ou isso é algo para um futuro distante em que toda a programação da emissora seja exibida em streaming?

DR: Acho que é possível. A área de entretenimento da Globo sempre foi progressista e pautou debates que sociedade brasileira nem sempre estava exatamente pronta pra ter e, a partir das histórias levadas à tela, refletiu e se transformou. 

CONTIGO!: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho fez muito barulho por conseguir sucesso comercial mesmo sem uma distribuição milionária. Você acha que o filme abriu portas no cinema nacional ou foi um reflexo de um tempo de mudança e abertura do mercado? Pergunto isso porque filmes com personagens homossexuais não são novidade no Brasil, mas explodiram no cinema nacional mais ou menos ao mesmo tempo, especificamente com gays como protagonistas.

DR: Acho que a explosão de filmes com essa temática surgiu pelo incentivo dado a indústria audiovisual nas últimas décadas. No passado, o mercado era reservado à poucas produções, então não se via tanta diversidade. A partir do momento em que o incentivo cresce, novos produtores surgem e, com isso, uma diversidade de projetos e filmes. E isso não está restrito aos filmes com personagens e temática LGBTQI. Esse incentivo fez com que a produção audiovisual crescesse muito como um todo e, dentro desse crescimento, estão as produções com temática da diversidade sexual e de gênero. Acho que esses filmes chamam a atenção porque muitas vezes retratam temas ainda tabus.

CONTIGO!: Em 2017, a Lacuna Filmes buscou profissionais transexuais para a produção de Amanda e Caio, um dos seus próximos filmes. Como foi a busca e qual é a importância de ter representado também por trás das câmeras a comunidade retratada?

DR: Nós recebemos centenas de currículos de pessoas trans interessadas em participar da produção, tanto no elenco quanto na equipe, e isso foi muito legal. Como estávamos contando uma história de personagens trans e esta é uma comunidade que historicamente enfrenta muito preconceito impedindo a empregabilidade, achamos que seria uma boa oportunidade de contribuir com essa questão.Considerando que o cinema é feito em equipe, quanto mais pessoas envolvidas ou identificadas com a temática que está sendo retratada, mais rica ficará a história na tela. 

CONTIGO!: Meio que continuando a pergunta anterior, como balancear a questão de representar uma comunidade estando fora dela (como no caso das pessoas cegas ou pessoas trans)? É mais fácil simplesmente não incluir personagens com essas características por medo de errar a mão?  

DR: Essa é uma questão complexa, mas eu acho que é sempre melhor errar tentando e levar personagens e histórias novas para as telas do que deixar de contar essas histórias por medo de errar a mão e manter tudo como está. Como eu disse acima, o cinema é feito em equipe então, por mais que o diretor não seja exatamente igual ao personagem que está retratando, se ele estiver aberto para a equipe ao seu redor e se for uma equipe com diversidade acredito que seja possível chegar a algum tipo de equilíbrio. Nunca será o equilíbrio perfeito, mas pode ser o possível. O mesmo vale para o roteirista que precisa estar aberto para colaboradores e também para fazer pesquisa sobre o assunto que está escrevendo.