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Revolucionando o sertanejo, Gabeu canta para a comunidade LGBTQIA+ e vence o preconceito: "Sou bem resolvido"

Filho do cantor Solimões, artista é o primeiro cantor assumidamente gay do ritmo e criador do "queernejo"

Isabelle Colina Publicado em 13/06/2021, às 09h51

Revolucionando o sertanejo, Gabeu canta músicas para a comunidade LGBTQIA+: "Preconceito enraizado" - Reprodução/Instagram
Revolucionando o sertanejo, Gabeu canta músicas para a comunidade LGBTQIA+: "Preconceito enraizado" - Reprodução/Instagram

Há anos, o sertanejo se mantém como um dos maiores ritmos do Brasil e os artistas arrastam multidões por onde passam. Com narrativas predominantemente para o público heterossexual, é difícil encontrar letras para a comunidade LGBTQIA+. 

Revolucionando o cenário musical, Gabriel Felizardo, mais conhecido por seu nome artístico Gabeu, é o primeiro cantor assumidamente gay do ritmo. Lutando contra o preconceito enraizado no gênero, ele lançou o que chama de "queernejo", uma vertente diversa e plural que busca a representatividade.

Com narrativas para a comunidade LGBTQIA+, o artista traz o melhor da música sertaneja, já que seu pai é ninguém mais, ninguém menos que Solimões, integrante da dupla Rionegro & Solimões, um dos mais importantes nomes do gênero. 

Com forte influência do pai, Gabeu lançou em 2019 a canção "Amor Rural", que conta a história de um casal homossexual que torna o relacionamento público. Sem medo, o artista tornou possível a identificação de pessoas, até então excluídas do ritmo. 

"As bichas caipiras que quando me descobrem me dizem coisas “finalmente alguém no sertanejo com quem me identifico”, e é sem dúvidas o melhor tipo de mensagem que eu posso receber, saber que eu tenho sido essa figura para algumas pessoas, essa figura que eu busquei a minha vida inteira e não encontrei, é emocionante!", declarou em entrevista à CONTIGO!

Dois anos depois, o cantor já soma mais 43,7 mil inscritos em seu canal no YouTube, além de mais de 57 mil seguidores nas redes sociais.  Celebrando o mês do Orgulho LGBTQIA+, a CONTIGO! conversou com o artista, que conta as suas inspirações, fala do preconceito e exalta o apoio do pai.

Você pode explicar o que é o Queernejo?

O Pocnejo, o Queernejo, ou simplesmente Sertanejo LGBTQIA+, é a vertente da música caipira onde nós nos encontramos. É o lugar onde nossa raiz e o nosso orgulho conseguem coexistir de forma harmônica e verdadeira.

Apesar de ser um dos maiores ritmos do país, é raro encontrarmos artistas da comunidade LGBTQIA+ nas playlists de sertanejo. A que foi atribui essa "exclusão"?

Os ideais tradicionais e preconceituosos enraizados no mercado. O Queernejo é a uma tentativa de furar essa bolha, de apresentar diferentes narrativas, diferentes perspectivas das histórias de amor, de traição e o que mais sentirmos necessidade.

Infelizmente, é comum artistas do sertanejo se envolverem em polêmicas após comentários preconceituosos. Como é para você ver declarações deste tipo de colegas de profissão?

A verdade é que na maioria dos casos eu não espero algo diferente. Quando ocorre algum caso de homofobia, racismo, machismo ou outro tipo de preconceito, parece que temos a obrigação de sermos didáticos, ter paciência e passar por cima de todos os traumas, memórias e questões internas não resolvidas para ensinar coisas que muitas vezes são básicas. 

 Você já foi alvo de algum ataque ou comentário preconceituosos de fãs do sertanejo? Se sim, poderia citar uma situação?

Ainda não tive que enfrentar isso cara a cara, mas desde que me lancei como cantor, com Amor Rural, vez ou outra leio algo na internet. No começo isso me abalava, hoje sou mais bem resolvido. Obviamente temos dias bons e ruins, dizer que nada me atinge seria mentira, mas sinto que consigo driblar melhor esse tipo de comentário.

Como foi a recepção dos fãs do sertanejo com o Queernejo?

Até que me surpreendeu! Existem diferentes perfis de público dentro de um único gênero musical, então sinto que de alguma forma tenho conseguido furar essa bolha e chegar em pessoas que eu não imaginaria chegar. Adoro quando senhoras mais velhas, geralmente fãs também do meu pai, chegam nas minhas redes empolgadas, elogiando, dizendo que gostam do meu trabalho. Isso é o que vale! O restante, analiso quando vale ou não a pena o debate.

Você tem alguma crítica ao sertanejo?

Tenho as minhas ressalvas em relação ao mercado e críticas ao conservadorismo. Mas levando em consideração a minha proposta artística, a maior delas é sobre todo o preconceito (de todos os tipos) que está muitas vezes enraizado, muitas vezes velado, na sociabilidade sertaneja.

Deixamos de lado o artista Gabeu, conversando com o Gabriel, como é a sensação de ter aberto a porta para um novo caminho no mercado musical?

Tudo isso tem sido uma forma também de me entender, de me conhecer, de fazer as pazes com minhas raízes, como eu geralmente digo. É tudo muito pessoal sabe? É delicado. Falar sobre isso é falar sobre humor, sobre uma estética brega que eu gosto de explorar, mas é também falar de inseguranças, de incertezas, da sensação de não pertencimento, de deslocamento, de ser errado. Tenho percebido nesse processo que funciono bem criativamente quando cutuco algumas feridas, por exemplo, estou com um álbum pronto para ser lançado, e ele foi todo produzido a partir desse meu movimento de me reencontrar no sertanejo. É um processo muito bonito, mas também doloroso. Agora, respondendo a pergunta, pensar que estou abrindo um novo caminho é imaginar todos os outros processos que vão existir além do meu, todos esses reencontros, essas curas, algumas mais leves, outras mais conturbadas... Talvez eu esteja divagando demais, mas é isso, nem eu consigo imaginar o que vem por aí.