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Exclusivas / Quebrando barreiras

Rapper, baiano, gay, negro: Hiran carrega identidades com orgulho e usa bandeiras para abrir caminho: "Me deram força"

Cantor quebrou barreiras e tirou poder do preconceito ao se apropriar da dor; leia

Leandro Fernandes Publicado em 16/06/2021, às 16h05

Hiran fala a respeito das identidades que carrega com orgulho - Divulgação/Heder Novaes
Hiran fala a respeito das identidades que carrega com orgulho - Divulgação/Heder Novaes

O mês do Orgulho LGBTQIA+ fala muito de identidades - cada uma das letras na sigla representa um conjunto de identidades ligadas à sexualidade ou identidade de gênero.

O cantor e rapper Hiran é representante de identidades: negro, gay, nordestino. Nascido na cidade de Alagoinhas, no interior da Bahia, ele escalou duramente até que seu nome fosse reconhecido. Conversamos com ele justamente sobre essas questões: identidade, sucesso, o mundo da música, e o futuro, para ele e para as comunidades às quais pertence.

Existe um movimento muito forte hoje de focar nas identidades coletivas - os grupos dos quais se faz parte. Para você é mais importante a identidade coletiva ou a individual? Ou você acha que não tem como dividir as duas coisas?

Eu acho que ambas as coisas são igualmente importantes. Eu acho que o senso de coletividade é essencial para que ninguém se sinta sozinho, pra que você entenda que existem pessoas que partilham de sensações semelhantes e que em algum ponto das histórias, as pessoas se cruzam em realidades parecidas. Quando você se une a essas pessoas e dá suporte, rola um entendimento e você fica mais forte. Mas ao mesmo tempo a gente não pode se despregar do fato de que cada experiência individual é única. Cada um vai ter a sua trajetória e eu não posso colocar a trajetória de outra pessoa em uma caixa tendo como parâmetro a minha.

Nesse mesmo sentido, você já contou que as suas identidades (coletivas e individuais, como pessoa LGBTQIA+, negro e nordestino) foram obstáculos em algum momento na carreira, mas elas tiveram também algum reflexo positivo? Na recepção do público ou mesmo nas liberdades que você pôde tomar artisticamente?

Com certeza ser uma bicha preta do interior da Bahia fazendo rap, no começo foi muito difícil pra mim. Eu sinto que quando eu cheguei, eu queria que as pessoas levassem meu trabalho a sério, mas você deve imaginar como o meio do rap é, então essas identidades todas passavam na frente.
Mas, ao mesmo tempo, eu encontrei com pessoas que entendiam o que eu tava falando ali. Muitos artistas LGBTQIA+ de rap que sabiam o que eu tava falando, pessoas que entendiam o meu desespero ali, que eram de outros estilos musicais e públicos que se identificavam comigo. Gente que não ouvia rap, eu ouço muito isso.
Isso acabou me possibilitando ter uma carreira, pra início de conversa, porque eu cheguei carregando essas bandeiras todas na minha testa, eu cheguei falando sobre cada uma dessas identidades. Apesar dos obstáculos que eu tive, eu sinto também que elas foram as ferramentas que me deram mais força.

Você acha que falta espaço para artistas que estão fora da "norma"? Ou só falta difusão mesmo?

A questão é que a maior parte das pessoas que têm o capital pra fazer a arte desses indivíduos fora da norma girar são as que não querem que essas pessoas estejam presentes nos lugares de destaque. Muitas vezes querem que essas pessoas se contentem com migalhas.
Querem que essas pessoas estejam ali, mas enquadradas em uma realidade específica. Eu acho que a internet hoje ela abre a porta pra que todo mundo encontre seu público, dialogue diretamente com as pessoas que podem se identificar com o trabalho, mas quem tem o poder financeiro não tem o interesse de investir nas pessoas que estão muito fora da norma.

Aproveitando que você falou da internet abrir a porta, você acha que essas portas têm se aberto mais, mesmo em um momento de conservadorismo em alta?

Eu acho que a internet possibilitou muitas coisas novas e diferentes, que fogem do molde antigo, de precisar de uma gravadora e estar na TV e na rádio. A internet possibilita que o público busque o que eles mais querem escutar e as discussões com que querem estar envolvidas.
A consequência disso é esse paralelo muito louco, porque a gente tá vivendo num momento em que a gente tem várias influências, de pessoas que estão fazendo arte, pessoas que são LGBTQIA+ de maneira independente, e ao mesmo tempo a gente tem esse governo maluco, essa realidade que vive matando a gente todo dia.

Mudando de assunto mas não tanto, você acabou de lançar um EP visual, História, que lida justamente com a questão das identidades. Foi um projeto nascido da pandemia?

Foi sim, foi um projeto que começou a surgir em mim quando eu voltei pra casa. Eu tava no Rio de Janeiro e voltei pra casa, essa volta foi muito simbólica e me fez revisitar algumas coisas na minha cabeça, lembrar de coisas da minha infância.

E como as parcerias se formaram nesse processo?

É engraçado que as ideias de convidar as pessoas pra participar de projetos meus vêm à medida que eu vou compondo eles. É muito louco, porque eu nunca sei se a pessoa vai topar participar ou não das minhas loucuras.
Eu queria que o projeto começasse com uma mulher preta cantando. A Margareth pra mim é um ícone. Eu queria esse poder que vem da voz da mulher preta pra iniciar esse projeto que fala muito da minha mãe e do meu orixá, Oxum.
Eu queria muito que a Linn [da Quebrada] participasse. Eu me agarrei muito nas coisas que ela fala.
O Wendel pra mim é o futuro, ele é um MC bem mais novo que eu aqui de Alagoinhas que ainda não teve o 'big break' e eu queria muito que ele estivesse nessa história comigo.
A Margareth é como se fosse a inspiração ancestral, a Linn é a pessoa que tá aqui agora, na mesma geração que eu e o Wendel é o futuro. Eu queria trazer esse senso de tempo.

Em mês do Orgulho LGBTQIA+, vou aproveitar para perguntar: qual foi o seu maior orgulho até hoje?

Meu maior orgulho foi ter coragem pra falar o que eu queria falar, do jeito que eu queria falar, como eu queria falar, através da minha arte. A cada dia eu venho aprimorando issomais. No meu último projeto, eu roteirizei o vídeo, dirigi o vídeo, produzi o vídeo, pra poder ter controle do que eu quero falar, como eu quero falar. Isso é uma coisa que, pra um corpo como eu, é muito difícil. E eu consegui cruzar essa barreira, ou comecei a cruzar essa barreira.

E, para finalizar, tem alguma coisa com a qual você sonha para o futuro da comunidade LGBTQIA+?

Eu tenho vários sonhos que eu desejo muito que não sejam utópicos, impossíveis. De um mundo onde todos aqueles clichês vão caber. Onde todas as pessoas sejam tratadas com respeito, igualdade, que as pessoas parem de matar a gente. Que as pessoas brancas, com poder, cis, heteronormativas, parem de matar a gente. Que a gente possa viver em vez de sobreviver. Ter paz.