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Após longa carreira, Eva Wilma parte deixando lição de amor à dramaturgia e legado além dos palcos

Discreta sobre a vida pessoal, atriz foi símbolo da busca pela construção de novos espaços para as mulheres

Gustavo Assumpção Publicado em 16/05/2021, às 09h46

Após longa carreira, Eva Wilma parte deixando lição de amor à dramaturgia e legado além dos palcos
Após longa carreira, Eva Wilma parte deixando lição de amor à dramaturgia e legado além dos palcos - TV Globo

A história de Eva Wilma (1933-2021) se confunde com a história da própria televisão no Brasil. E se confunde com o longo processo de emancipação da mulher e as transformações na sociedade brasileira a partir da segunda metade do século XX.

Do início como bailarina clássica ao estouro como protagonista das novelas de Ivani Ribeiro nos anos 70, entre elas os sucessos Meu Pé de Laranja Lima (1971) e a primeira versão de Mulheres de Areia (1973), a atriz não fugia dos debates públicos e se posicionava de maneira firme contra qualquer tipo de repressão. Em 1968, o ano que não terminou, ela liderou ao lado de Tônia Carrero, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker a Passeata dos Cem Mil, primeira grande manifestação contra a ditadura militar. Nos palcos, estrelou textos dos principais dramaturgos e foi uma das fundadoras do Teatro de Arena, símbolo da reinvenção da produção teatral em São Paulo. De Um Bonde Chamado Desejo, passando por Esperando GodotA Megera Domada, se mostrou uma das mais versáteis atrizes do teatro no Brasil.

Ao longo de uma carreira vitoriosa, a atriz entregou alguns dos personagens mais marcantes da história das telenovelas. Em 1997, por exemplo, divertiu (e revoltou) o Brasil como a Altiva de A Indomada (1997). Seu bordão "oxente, my god!" virou hit e as situações bizarras da trama divertiram o público.

Logo na sequência, ainda no final dos anos 90, ela foi escolhida como uma das estrelas dos seriados Malu Mulher (1981) e Mulher (1998/1999), símbolos da tentativa de um retrato mais plural de personagens femininas nas produções para a TV. Para ela, já uma veterana, a atuação nos projetos encabeçados por Daniel Filho foi um ponto de ruptura.

“Na primeira gravação dentro do estúdio, de uma UTI, eu passei o dia inteiro repetindo uma fala muito científica. Quando sentei na UTI, parecia que era a primeira vez que eu ia representar. O Daniel [Filho, que dirigia o projeto] começou a rir, porque eu gaguejava! Foi muito difícil”, declarou ela.

LEGADO 

Foi uma mulher de poucos e duradouros amores. Entre 1955 e 1976 foi casada com John Herbert. Três anos depois se casaria com Carlo Zara em uma união que durou por 23 anos até a morte do ator em 2002. 

Atuou até o fim e na parte final de sua carreira apresentou algumas de suas melhores performances na TV, como a dissimulada Iris de Fina Estampa (2011) e a trágica Dona Fábia, de Verdades Secretas (2015). No teatro, estrelou uma montagem inesquecível de O Que Terá Acontecido A Baby Jane? (2016) ao lado de Nicette Bruno.

“A expressão artística tem uma ligação com a divindade. A matéria-prima do ator, além do físico, é a imaginação. Essa criatividade está dentro e fora. Acho que tem um dedinho de Deus no meio disso”, afirmou ela ao ser entrevistada para o Memória Globo no início dos anos 2000. Só Deus mesmo para explicar o talento de uma atriz como Eva Wilma.