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Críticas / Crítica

'Sob Pressão' fica cada vez melhor, mas precisa cuidar de seus protagonistas

Melhor série brasileira de todos os tempos precisa de psicólogos para cuidar dos médicos; confira nossa crítica

Leandro Fernandes Publicado em 26/07/2019, às 08h25 - Atualizado em 07/08/2019, às 17h47

Marjorie Estiano e Julio Andrade em 'Sob Pressão' - Divulgação/Globo/Raquel Cunha
Marjorie Estiano e Julio Andrade em 'Sob Pressão' - Divulgação/Globo/Raquel Cunha

É muito raro que séries fiquem melhores ao longo dos anos, mas é exatamente isso que acontece com Sob Pressão.

Não que precisasse, já que mesmo a primeira temporada era excelente, mas a série médica da Globo conseguiu ao longo de três temporadas mostrar um nível de qualidade que não deixa nada a desejar se comparada a séries da HBO - incluindo as internacionais. Se você está lendo isso indignado e gritando para a tela dizendo que "nunca, essa sériezinha brasileira nunca estará no mesmo nível que a minha preferida", você provavelmente não assistiu à terceira temporada de Sob Pressão. Ah, desnecessário dizer que se você não assistiu, todo este texto contém spoilers.

A série bebe das influências sem copiar: tem o jeitão sério e às vezes sombrio de Plantão Médico e o sofrimento direcionado de Grey's Anatomy, mas soma isso a uma identidade unicamente brasileira ao exibir o serviço de saúde pública como ele é: sucateado e vulnerável. Enquanto a incrível segunda temporada teve a corrupção como vilã, a terceira enfiou o dedo numa das maiores feridas abertas do Brasil de 2019: as milícias do Rio de Janeiro. Estabelecidos como um perigo para toda a sociedade ao redor de seus centros de atuação, os criminosos mataram pessoas dentro do hospital e o conflito com a polícia culminou numa cena de guerra naquele que deve ser lembrado como o melhor episódio da série (e falarei especificamente sobre ele mais abaixo).

Entre tudo isso, quem cresceu também ao longo dos anos foi Marjorie Estiano. Sou fã confesso, mas desde o início da série sempre senti os dramas da médica Carolina bem mais interessantes que a de seu par, Evandro. Na terceira temporada eles viveram uma montanha russa, com uma gravidez encerrada de maneira violenta e traumática e os efeitos disso no relacionamento. Dizer que Marjorie brilhou não atende ao que ela fez. O bom ator ou boa atriz faz com que o personagem se torne real aos nossos olhos, com que esqueçamos que existe a Marjorie Estiano - e isso é muito difícil quando sua atuação é de nuances e não de grandes afetações, como é o caso aqui. Mas ao ver Carolina tentando achar os batimentos de seu bebê, não tinha como enxergar a atriz, só a personagem. Essa entrega tornou Carolina a protagonista definitiva de Sob Pressão.

Não que Júlio Andrade seja um ator menos bom: ele consegue sempre entregar um Evandro diferente, respondendo à instabilidade do personagem. As discussões entre o casal após o aborto involuntário são tensas, profundas e sempre machucam, como uma boa discussão deve ser. Quem também se destacou foi Drica Moraes como a sincerona Vera, uma das personagens com um arco narrativo mais previsível, mas também mais bonito. Aproveitando a ideia de que esta seria a última temporada, quase todos os coadjuvantes tiveram seus momentos, principalmente Décio (Bruno Garcia), que encontrou o amor com um paciente jovem e Charles (Pablo Sanábio), devastado pelo amor não-correspondido.

Mas ok, vamos falar daquilo que precisa ser dito. O décimo episódio da temporada, dirigido em dupla por Júlio Andrade e Andrucha Waddington, que seguiu os médicos e pacientes pelos corredores do hospital com três longas sequências sem corte - a câmera só parou para dar espaço à abertura e um único intervalo. O artifício do plano-sequência (a técnica de filmar sem cortes) não é usado em vão, já que o episódio narra a invasão do hospital pelos milicianos. A tensão é amplificada e a imersão, absoluta. No intervalo, as mãos tremiam e o coração estava disparado, e olha que eu cheguei a levar um spoiler do que aconteceria. Perfeitamente coreografado, o episódio mostrou coragem e excelência, além de fundar meu argumento de que Sob Pressão é uma das melhores séries do mundo.

Há, no entanto, um probleminha que a série nunca trabalhou muito bem. Evandro e Carolina são pessoas profundamente traumatizadas que se afundam no trabalho para esquecer dos problemas. Isso chega a ser abordado no finzinho da temporada, mas nada é feito para mudar. A impressão que fica é que, em vez do aviso no fim do episódio, deveria estar escrito: "Todos esses dramas pessoais teriam sido evitados com a ajuda de uma boa terapia". Afinal, como assim uma médica tenta o suicídio e segue a vida normalmente, sem ser tratada por psicólogos? Evandro ainda terminou a série buscando o tratamento para seu vício, mas a médica simplesmente foi viver uma aventura e tratar comunidades isoladas no Brasil, em vez de ser atendida por profissionais. Esperemos que o retorno da série em 2021 não traga de volta os grandes traumas dos dois e trabalhe novos dramas, de preferência com psicólogos dando apoio.

Enfim, por um lado é bom que a Globo tenha percebido que terminar Sob Pressão era um erro. Por outro, o fim apresentado nessa temporada não teria sido terrível. Só teremos de esperar até 2021 para rever nossos médicos preferidos e, tomara, ver Sob Pressão ficar ainda melhor.