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Críticas / OPINIÃO

Opinião: Indicação ao Emmy de 'AmarElo' precisa elevar diversidade na produção para o streaming

Sucesso do longa da Netflix que propõe reflexão com qualidade artística é momento para plataformas arriscarem

Gustavo Assumpção Publicado em 23/09/2021, às 17h29

Indicação ao Emmy de 'AmarElo: É Tudo para Ontem' deveria ampliar diversidade na produção das plataformas de streaming - Reprodução/Netflix
Indicação ao Emmy de 'AmarElo: É Tudo para Ontem' deveria ampliar diversidade na produção das plataformas de streaming - Reprodução/Netflix

Indicado ao Emmy Internacional de melhor programa de artes, o longa AmarElo: É Tudo Pra Ontem é uma produção que deveria se tornar referência para as plataformas de streaming. Não apenas pela qualidade técnica inegável ou pelo roteiro inspirado que faz uma viagem em defesa da redescoberta da cultura negra, mas também porque assume esse tipo de plataforma não apenas como um espaço de entretenimento, mas também como um ambiente em que é possível reconstruir as realidades.

Embora produza conteúdo dos mais variados gêneros e já esteja presente nas principais premiações anuais com suas séries e filmes, aqui no Brasil as produções originais da Netflix ainda insistem em focar apenas em um entretenimento de massa, mais palatável e criado a partir de formatos mais consagrados.

São vários os exemplos de comédias românticas banais ou realities shows que são o puro suco da mera distração. Nada contra: afinal, as vezes precisamos sentar na frente da televisão e desligar da realidade.

Mas plataformas como a Netflix precisam também acreditar em seu potencial de gerar impacto.

Segundo uma pesquisa realizada pela divisão de Mídia da Nielsen Brasil em 2020, 42,8% dos brasileiros consomem alguma plataforma de streaming - entre os jovens de 16 a 23 anos, o percentual salta para 76,8%. Isso significa que na idade em que estão se formando como atores políticos e criando raízes firmes para a vida em sociedade, 3 a cada 4 jovens brasileiros consomem conteúdo nessas plataformas. É, portanto, inegável o impacto que produções voltadas para a formação crítica podem alcançar. Uma produção plural que também busque ajudar nesse processo se faz urgente - e necessária.

É TUDO PRA ONTEM

Dirigido por Fred Ouro Preto e produzido por Evandro Fióti, co-criador da Laboratório Fantasma e irmão de Emicida, o documentário é um desmembramento do álbum lançado pelo rapper que conquistou público e crítica. A partir de um show realizado no Theatro Municipal de São Paulo, a produção parte na tentativa de costurar a teia de personagens silenciados e os aspectos da cultura negra que se tornaram invisíveis, longe dos registros da 'história oficial' brasileira.

A história de São Paulo pelo olhar de Geraldo Filme, as memórias de Mateus Aleluia, o mundo inventado por Pixinguinha, a potência de Ismael Silva, as ideias de Lélia Gonzalez, a força de Leci Brandão, tudo está presente no longa que não é apenas um grito de ‘levanta e anda’, mas também uma celebração ao que o Brasil tem de melhor, à sua gente que insiste em criar diante da violência e que se mantém de pé, firme na busca por construir um outro Brasil.

É Tudo pra Ontem é combativo sem ser simplista, propõe uma interpretação particular do Brasil e tem grande valor estético. Além das canções de Emicida, ainda coloca sobre a mesa um ostensivo trabalho de direção artística, uma edição pouco clichê e uma pesquisa que cria um mosaico a partir de imagens que estão em nosso imaginário. É elucidativo sem ser exageradamente didático. É um ponto de partida, a abertura para um 'Dia de Graça'.

Que a indicação ao Emmy Internacional inspire as plataformas de streaming a não desistirem de colocar seu próprio público para pensar. Só assim será criado um consumidor mais plural, com hábitos mais diversos e que se reconheça plenamente em suas produções. Ganham todos. 

Como diz o célebre samba de Luiz Carlos da Vida, a nós brasileiros há uma necessidade primeira: "é preciso a atitude de assumir a negritude pra ser muito mais Brasil".