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Críticas / CRÍTICA

'Nos Tempos do Imperador' começa promissora ao propor retrato da criação a fórceps do Brasil

A natureza, os conflitos, a escravidão: novela de Alessandro Marson e Thereza Falcão é viagem para entender o país

Gustavo Assumpção Publicado em 11/08/2021, às 16h07

'Nos Tempos do Imperador' começa promissora ao promover retrato da turbulenta formação do Brasil - Reprodução/Instagram
'Nos Tempos do Imperador' começa promissora ao promover retrato da turbulenta formação do Brasil - Reprodução/Instagram

No imaginário europeu sobre o “Novo Mundo”, a natureza sempre ocupou um espaço fundamental. Era no Brasil que existiam os animais mais fantásticos, a flora mais exuberante e os mistérios mais bem guardados. Do descobrimento à independência, os europeus que aqui desembarcavam traziam consigo relatos de viagens repletos de exageros e de uma visão idílica dessas terras.

Por isso, não é ao acaso que logo na primeira cena de Nos Tempos do Imperador, Dom Pedro II (Selton Mello) e Thereza Cristina (Letícia Sabatella) observam o horizonte repleto de formações rochosas a se perder de vista.

“Poderemos ser os imperadores desse país, mas a natureza é a verdadeira majestade”, diz o monarca que foi um dos responsáveis pela tentativa de construir a identidade desta nação que começava a germinar, forjada em injustiças, idealizações e bases frágeis.

Segunda novela da dupla Alessandro Marson e Thereza Falcão, a novela que acaba de estrear no horário das seis pretende fazer um retrato do pós-independência, época em que o recém-criado Brasil ainda era sustentado pela escravidão e balançado pelas disputas políticas no entorno de nossas fronteiras, conflitos que vão desaguar na sangrenta Guerra do Paraguai (1864 e 1870).

Como toda boa novela, a trama idealiza, exalta e constrói uma narrativa em torno de um herói, aqui o próprio monarca. Carismático e sempre dono de atuações seguras, Selton Mello constrói uma visão particular do Imperador amante das ciências e das artes e idolatrado no exterior graças a sua ampla cultura geral e a sua paixão por viagens. Pomposo, de ar esguio e espinha ereta, ele parece dono da situação, um verdadeiro líder em uma época em que carecemos de representatividade.

Nos primeiros capítulos, é construída uma narrativa que não invisibiliza outras lutas, como a dos malês, conflito em Salvador que é um símbolo de resistência à escravidão e que marcará na história brasileira nomes como a guerreira Luísa Mahin, hoje um ícone do novo movimento negro.

Nessas sequências, um belo trabalho de pesquisa deu dramaticidade e beleza para cenas que saltam aos olhos e mostram que a vinda forçada de negros escravizados foi base fundamental da construção desse país. E mais do que isso: mostra, com força, que nunca deixou de existir resistência à violência contra pretos e pretas, um diálogo com o resgate dessa resistência que atualmente ocupa papel central no debate sobre a história imperial na academia.

Assim como Novo Mundo, já é possível sentir um certo didatismo na explicação dos acontecimentos históricos e uma atuação por vezes exageradamente teatral. Sotaques mal colocados e um retrato plano de algumas figuras também geram um certo incômodo, mas nada muito incontornável. Com um elenco estelar, um trabalho de produção invejável, uma trilha sonora de altíssima qualidade e um texto muito bem escrito, a novela já mostra que está disposta a entregar um produto acima da média, promovendo uma discussão que pode nos ajudar a entender como chegamos até aqui.

Voltar ao passado, mesmo que romantizado, pode ser uma oportunidade para entender as bases a partir de qual formamos essa nação. Viajar a Nos Tempos do Imperador é uma experiência fascinante para entender porque somos tão frágeis - e porque ainda temos um longo caminho a percorrer.