Humberto Martins: “Rugas são troféus da vida"

Galã dos anos 1990, o ator afirma não ser machista, muito menos homofóbico como seu personagem, o Eurico de A Força do Querer. Solteiro, está adorando ser avô

Por Ligia Andrade

Humberto Martins é Eurico em A Força do Querer | <i>Crédito: Fotos: Cadu Pilotto
Humberto Martins é Eurico em A Força do Querer | Crédito: Fotos: Cadu Pilotto
Há cerca de um ano, Humberto Martins, 56 anos, resolveu autossustentar sua casa no Rio de Janeiro. Utilizar a energia solar, fazer cisterna para captar a água da chuva e criar uma horta estão entre os seus projetos. Algumas coisas já estão sendo colocadas em prática. Tomate, beterraba, mandioca, coco, banana, cebola, couve, alface, entre outros tipos de frutas, verduras e legumes são colhidos no quintal do ator, intérprete de Eurico, um empresário retrógrado e preconceituoso em A Força do Querer (Globo). “Dá para quatro pessoas durante um mês”, conta ele, orgulhoso. Completando 30 anos de carreira, Humberto afirma ser completamente diferente de seu personagem, reflete sobre suas escolhas profissionais e sobre a vida. Avô pela primeira vez, baba pela netinha, Sofia, de 4 meses, confessando ainda que estar com alguém não é uma prioridade. As rugas, naturais da idade, tampouco são um incômodo, pelo contrário. Para o futuro, se vê dando aulas e palestras, passando um pouco de seu legado. Leia mais a seguir.

Bem-resolvido “As rugas são troféus da vida, tenho orgulho delas. O tempo está passando dentro de uma lógica, de uma compreensão em busca da sabedoria, da luz, do afeto, do amor, do carinho, das boas relações... É maravilhoso. Sou muito bem-resolvido com relação àquilo que me foi dado para a vida. O ser humano tem de se bastar, o que vier é lucro, vai ser uma surpresa. Acordo e durmo brincando.”

No dia a dia “Faço mais alongamento. Quando dá um mar bom vou surfar, e, se não estiver alongado, não vou praticar bem – o mesmo quando for jogar golfe.”

Eurico é casado com Silvana (Lilia Cabral) na novela  das 9

Ecologicamente correto “É um projeto de vida, de sustentabilidade, de economia, de comer o que você está plantando. Sou da alimentação de tubérculos, de folhas, de frutos, de integral, sem lactose, sem açúcar, mas como de tudo na necessidade, não passo fome na casa do amigo, por exemplo.”

Vovô humberto “Tenho o Jack, enteado da minha filha Thamires (28, ele é pai ainda de Humberto, 20, e de Nicolle, 10), e agora ela teve também a Sofia, de 4 meses. Tem de ser babão, é maravilhoso. É bom ver sua prole crescer. Humberto tem vontade de ter os filhos dele. Vai ficando mais gostoso, ganhando motivos novos.”

Passando valores “Gasto meu dinheiro com responsabilidade e meus filhos foram criados assim. “Ah, quero ter um tênis tal...” Compra um mais barato e bonito. Tenha argumentos... É moda, mas seja diferente. Com esse dinheiro, ajude uma pessoa. Lembro de ter esse diálogo na frente de uma loja com a Thamires. Posso comprar, mas não vou, é um absurdo. Todos eles são assim. Por que as pessoas não fazem isso?”

Solteiro, Humberto é contra estar com alguém apenas por medo da solidão

Coração preenchido “Estou bem, tranquilo. Sou divorciado, mas estou legal, não fico sozinho. Não é uma condição, uma necessidade ter alguém, a gente aprende a se bastar e isso é muito importante, é um entendimento. Melhor do que forçar certas barras, estar com alguém por solidão ou medo de ficar só. Quero curtir meus filhos, netos, meu trabalho, focado em outras coisas.”

Sintonia “Sou grato pelo carinho e pelo convite da Glória (Perez, 68, autora). O personagem tem nuances, isso dá motivação. Lilia (Cabral, 59) é uma parceira perfeita, atriz pronta, uma colega maravilhosa. Silvero (Pereira, 34) é supertalentoso, disciplinado, atento a tudo.”

Processo de construção “Sou bastante autocrítico, de estudar em casa, diante do espelho. Reproduzo as cenas como se a pessoa estivesse na minha frente e vou moldando. Digo que é uma interação física e psíquica, para construir algo diferente com o seu corpo e voz.”

Privacidade “Não sou machista, mesmo. Nem homofóbico. Homofobia é um preconceito ultrapassado. Passaram-se tantos anos e por que isso ainda persiste? Não consigo entender. É desnecessário, é a vida de cada um.”

Sem polêmicas “Disse que faria um personagem gay sim, faço! O ator pode fazer qualquer personagem. Não é porque tenho todo este perfil que não posso interpretar outros tipos, como já interpretei. Quis dizer que novela é um produto popular e abrangente, já estou há muito tempo dentro de um perfil de personagem comercialmente agregado ao público. Seria uma perda porque não tenho o physique du rôle (expressão francesa para definir o jeito físico adequado ao papel). Se fosse em uma série, teatro, com certeza. Já fiz personagens que desconstruíram o galã, o cara bonito...”

Nos Estúdios Globo, Humberto posa na horta e mostra que entende do assunto. Ele também planta em sua casa, no Rio

Palestrante “Fui agraciado por cada momento que passei, tanto os méritos, o auge, quanto as mazelas. Tudo isso vai nos transformando como profissional e pessoa, adquiri experiência, foi interessante. Tenho vontade de devolver através de aulas, workshops, palestras, o que já tenho feito, mais até do que vontade de dirigir.”

Descamisado “Era um cara disponível, o que é difícil de encontrar. Nunca tive muito cuidado comigo em cena, faz parte do meu histórico, de esportista, de eu mesmo fazer as cenas. Carlos Lombardi (autor) achou a pessoa e foi dando certo. Mas isso me prendeu, me desvalorizou, só era visto como ator de ação. Antes, fiz coisas interessantes, composições... Isso me estereotipou por 11 anos e trouxe uma cicatriz de prestígio e de respeito profissional e financeiro. Já vinha pensando que isso estava me desgastando. Não posso negar que ele é um grande autor, com grandes histórias, tiveram os prós, como o sex symbol, algo que te marca, mas não é só isso. O ator não é isso.”

Transição traumática “A casa não queria me tirar desse nicho. Teve uma hora em que tive de dar o basta. E aí tudo deu certo.” 

Separando as estações “É perigoso emendar, tem de ter uma capacidade de despir e vestir outro papel, precisa-se de um tempo. Procuro delimitar a separação, o personagem anda a três passos de mim. É importante o ator não se perder dele próprio. Nunca aconteceu comigo porque vim do teatro.” 

Para quem tem fé “Ela me faz forte, superar tudo. Nunca tive moleza na minha vida, se estou doente, vou trabalhar; se estou mal, venho também, nada me impede, por causa da fé. Tenho positividade.” 

15/07/2017 - 21:00

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